Mulheres que sustentam


Sexta-feira, 14 de Agosto de 2026

Toda sexta, o Brasil Profundo abre uma fresta.

Uma pequena curadoria de filmes, reportagens, livros, podcasts e outros caminhos que também atravessam os nossos guias. Conteúdos que ajudam a chegar mais perto das pessoas que criam, transmitem e renovam práticas culturais em diferentes partes do país.

Nesta primeira edição, seguimos duas histórias de mulheres negras cujas trajetórias ajudam a compreender a cultura brasileira para além da imagem pronta da festa, da comida ou do espetáculo.

Foto: Divulgação Leoas

Leoas: memória, maracatu e liderança feminina

O documentário Leoas, de Karen Aguiar, nasceu do desejo de registrar a história de Dona Janete, sua avó.

Costureira, administradora e Dama do Paço do Maracatu Nação Leão Coroado, Dona Janete ocupou diferentes funções na construção cotidiana da Nação. Sua presença atravessava a organização, o trabalho, a religiosidade e a continuidade do maracatu.

Ela morreu antes do início das filmagens.

Karen transformou então o projeto num retrato coletivo. Reuniu mulheres de diferentes gerações ligadas à avó e ao Leão Coroado para contar uma história que raramente ocupa o centro da narrativa: a de quem costura, organiza, toca, conduz e ajuda uma tradição a atravessar o tempo.

O filme também acompanha mudanças dentro da própria Nação. Karen tornou-se a primeira mulher a assumir a regência do Leão Coroado, enquanto outras mulheres passaram a ocupar instrumentos e posições de liderança antes reservados aos homens.

A memória de uma avó se abre, assim, para uma história maior sobre presença feminina, transmissão e reconhecimento.

[ASSISTA A LEOAS]

Foto: Dona Ivonete / Divulgação Amazônia Vox

Dona Ivonete e os caminhos do tacacá

Em Belém, Dona Ivonete representa a segunda geração de uma família que ocupa há cerca de sessenta anos o mesmo ponto na Avenida Nazaré.

A reportagem do Amazônia Vox acompanha sua trajetória como tacacazeira e mostra como tradição e negócio se encontram no cotidiano. O tacacá aparece como saber herdado, trabalho, sustento familiar e relação com a cidade.

Dona Ivonete fala sobre a singularidade de cada tacacazeira, sobre os conhecimentos transmitidos dentro da família e também sobre os cursos de gestão, precificação e inglês que buscou para atender novos públicos.

Sua história desmonta a ideia de que tradição e transformação caminham em direções opostas.

O saber permanece vivo porque encontra formas de responder ao presente. Há continuidade na receita, no ponto ocupado pela família, na relação com os ingredientes e no modo de servir. Há também estratégia, aprendizado e decisão.

Conhecer Dona Ivonete é perceber que um patrimônio cultural não existe suspenso no tempo. Ele depende de pessoas capazes de cuidar do que receberam e, ao mesmo tempo, encontrar condições para seguir.

[LEIA A REPORTAGEM NO AMAZÔNIA VOX]

Foto: Dona Dalva / Acervo Câmara Legislativa Brasileira

Dona Dalva e o reconhecimento das sambadeiras

Dona Dalva Damiana de Freitas começou a cantar e compor ainda menina. Em 1958, criou o Samba de Roda de Suerdieck, em Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Sua trajetória ajuda a entender a presença das mulheres na criação, na transmissão e na continuidade do samba de roda. Também expõe uma diferença importante entre participar de uma tradição e ser reconhecida como autoridade sobre ela.

Dona Dalva trabalhou por décadas como sambadeira, compositora e liderança cultural. O título de doutora honoris causa, concedido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, tornou visível uma autoridade que sua comunidade já conhecia muito antes do reconhecimento acadêmico.

Conhecer sua história é acompanhar o caminho de uma mulher que ajudou o samba de roda a atravessar gerações e a conquistar reconhecimento como patrimônio cultural do Brasil e da humanidade.

[OUÇA A HISTÓRIA DE DONA DALVA]

As mulheres que fazem a cultura continuar

Dona Janete, Dona Dalve e Dona Ivonete ocupam lugares distintos. Uma atravessa a memória do maracatu; outra transforma essa memória em música e ritmo; a terceira mantém vivo um ofício ligado à culinária e à vida urbana de Belém.

O que aproxima essas histórias é a presença de mulheres que não apenas participam da cultura brasileira.

Elas organizam, criam, administram, ensinam, renovam e constroem as condições para que determinados saberes continuem existindo.

Durante muito tempo, parte desse trabalho foi descrita como ajuda, cuidado ou obrigação familiar. O reconhecimento como autoria, especialidade ou mestria veio mais tarde — quando veio.

Foi seguindo esse fio que criamos o guia Quem sustenta a cultura do Brasil?

A publicação percorre doze patrimônios culturais brasileiros e reúne personagens, filmes, reportagens, podcasts e outras referências para conhecer mulheres guardiãs e mestras de saberes fundamentais para a vida cultural do país.

Baixe o guia

O guia está disponível gratuitamente.

[BAIXAR O GUIA QUEM SUSTENTA A CULTURA DO BRASIL?]

E, toda sexta, voltamos com uma nova Fresta: uma curadoria para continuar conhecendo o Brasil por quem o faz existir.

Anterior
Anterior

Fresta Viva: um ano depois

Próximo
Próximo

Volte e Pegue: resgatar também é inovar